terça-feira, 25 de março de 2014

Propiciação, Expiação, Justificação - Sabe a diferença?





Há no vocabulário bíblico, entre outras, três palavras que eu considero especial. Tenho por mim que o correto entendimento do significado de tais coisas certamente irá enraizar o firmamento da fé que temos. Expiação, Justificação e Propiciação. Claro que não pretendo esgotar o assunto, mas ter um início já é o suficiente para gerar em você um desejo de se aprofundar no assunto.

A gente tem o costume de falar sobre as coisas sem refletir no que elas representam de verdade. Toda vez que eu penso na profundidade dessas palavras começo a sorrir sozinho, lembro-me o quanto elas são importante para determinar minha convicção do quanto sou amado. Então, vamos lá!!!

Pano de Fundo: Antes de entender o que são tais coisas, é preciso primeiro entender a razão e a necessidade de tais coisas. E é isso: Deus é Santo, o que significa que nele não há pecado algum, mais que isto, que Deus não pode relacionar-se ou ter parte com qualquer coisa afetada pelo pecado, visto que o pecado é essencialmente contrário à natureza de Deus. Como sabemos, o homem é completamente afetado pelo pecado. A Bíblia diz que ele já nasce em pecado (Gn 8:21; Sl 51:5), que a inclinação do seu coração é continuamente e sempre para o mal (Gn 6:5), que não um justo sequer (Mq 7:2; Ec 7:20; Rm 3:10), ninguém que por si mesmo busque a Deus (Sl 14:2-3, 53:2-3; Rm 3:11), que todos cometeram pecados (Rm 3:23), indicando que não há um homem que não peque (1 Jo 1:8, 10). Se o que a Bíblia diz é verdade, que todos temos pecados, quem poderia ficar de pé diante de Deus? Quem poderá se relacionar com Ele nessas condições, visto que a Bíblia diz que nem mesmo os anjos ou o céu são tão puros aos seus olhos (Jó 15:15)? A resposta certa e sincera é: ninguém, “Quanto mais abominável e corrupto é o homem que bebe a iniqüidade como a água?” (Jó 15:16).

Além disso, Deus tem uma Lei que reflete sua santidade, e, de fato, falhamos em muitos pontos. Se falhamos em algum ponto, falhamos em todos os pontos (Tg 2:10). Se falhamos em obedecer, concluímos que estamos em flagrante ato de desobediência, e sabemos que toda desobediência será rigorosamente punida. Dessa forma, devemos entender então porque nos relacionamos com Ele livremente, livre de condenação e culpas. A razão de “nos achegarmos confiadamente diante do trono da graça” (Hb 4:16), é explicada no significado dessas três palavras.

1.       Expiação: Porque naquele dia se fará expiação por vós, para purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Senhor” - Levítico 16:30
Era o ato provisório de remoção da culpa pelo pecado diante de Deus. Havia uma lei quebrada, e por isso, deveria haver uma condenação por causa da culpa do pecado. Sabemos que o salário do pecado é a morte (Rm 6:23), entretanto, o pecador não morria, outro morria em seu lugar. Cordeiros eram sacrificados para remoção da culpa dos pecados nacionais e particulares da nação Israelita. "Kaphar", traduzido como expiar, literalmente significa "cobrir por cima, esconder por encobrir por cima e de modo a não ficar visível". Atenção para as diferenças cruciais: a) Era o pecador que procurava expiação, que era recebida por Deus; b) Era feita a cada pecado cometido (individual) ou uma vez por ano pelos pecados da nação; c) o perdão era concedido mediante a morte de um substituto, o derramar do sangue; d) pela expiação do Velho Testamento, os pecados eram apenas cobertos, não removidos. Dessa forma, a justiça de Deus era satisfeita, pois havia, ainda que parcialmente, o pagamento pela transgressão (morte). Isso era uma amostra do que iria acontecer. Aqui, chamo sua atenção para o Verdadeiro Ato de Expiação feito na Cruz. Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1:29), morrendo por pecadores, encobrindo pecados de seu povo, não provisoriamente, mas eternamente, de uma vez por todas (Hb 9:12); sua morte representa a completa satisfação da Justiça de Deus, tendo toda transgressão e desobediência recebido a justa punição (Hb 2:2). Assim, estamos cobertos da culpa do pecado porque um cordeiro foi morto em nosso lugar, tendo removido totalmente nossas culpas. Isso é o que quer dizer expiação dos nossos pecados. É por isso que Paulo afirma que para os que estão em Cristo Jesus não há nenhuma acusação (Rm 8:1), tendo o escrito de dívida cravado na cruz (Cl 2:14). Por isso, celebre sua liberdade, viva sem culpa. Lembre-se sempre disso quando Satanás tentar te lembrar de seus pecados passados, ou incentivar você a entrar na escuridão da culpa pelos pecados que vier a cometer. Arrependa-se, confesse seus pecados, e abandone-os, Cristo sempre lhe esperará depois disso!

2.       Justificação: “Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus” - Romanos 3:23-24
O termo funciona como uma declaração jurídica. É o ato declaratório feito por um juiz de que alguém é justo, de que este não quebrou leis. Teologicamente, acontece quando Deus declara o pecador justo, sendo ele aceito e perdoado por causa de Cristo somente. De fato, sabemos que não somos justos coisa nenhuma, a menos que creiamos no Justo Filho de Deus. Não apenas isso, mais que declarar pecadores justos, isto é, como se eles nunca tivessem quebrado lei alguma, Deus ainda os reveste da Justiça de Cristo. Isso implica dizer que além de ter cumprido a lei de Deus, ainda fizemos sempre obras justa. Com sinceridade, todo homem vai admitir que isso não é verdade a respeito de si mesmo, porque estamos sempre lutando para deixarmos pecados, para sermos melhores e abandonarmos o egoísmo. Assim, não podemos ser considerados justos a não ser crer que isso seja verdade através da fé. Ser justificados pela fé implica dizer que temos nos revestido da Justiça de Cristo (Gl 3:27). Por Ele nunca ter quebrado Lei alguma, também somos assim vistos por Deus. Essa é a razão de Paulo ter dito que estamos “escondidos em Cristo” (Cl 3:3). Ora, pegue um pequeno pedaço de papel, coloque-o dentro de um livro e feche o livro. Olhe fixamente para o livro e diga se consegue ver o papel no meio do livro. Claro que não, você verá apenas o livro, pois o papelzinho está escondido lá dentro. Nós estamos escondidos em Cristo, quando Deus nos vê, na verdade está vendo Cristo, por isso somos abençoados, pois no final das contas, quem recebe a recompensa é o próprio Cristo. Outro exemplo prático para entender justificação é pensar em um carro. Entre nele e olhe para fora através do para-brisa. Tudo quando você verá está afetado pelo para-brisa, se tiver insulfilm, verá a claridade das coisas com menos rigor. Da mesma forma, Cristo é o para-brisa, por assim dizer, que faz com que Deus nos enxergue através de Cristo. Se Deus tirar o para-brisa da frente, nos verá como realmente somos. Não fazemos nada para sermos justificados, somente cremos. A menos que você não creia no Filho de Deus, pela fé, então Deus sempre o verá através de Cristo. Isso é para fazer nossos joelhos dobrarem em gratidão, pois se isso não afetar nosso coração, nada mais afetará!

3.       Propiciação: “Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça” - Romanos 3:25
Aqui está a palavra que eu mais admiro, pois ela demonstra a intenção de Deus em relacionar-se com seu povo. “Propiciar”, segundo o dicionário é “tornar propício, favorável”. Você só torna algo favorável quando este algo está desfavorável, ou pelo menos inerte. Na mente de Paulo e João, quando escreveram sobre o ato de propiciar, estavam as práticas feitas pelos pagãos de fazer sacrifícios de propiciação para tornar um deus (falso) favorável a eles. Se eles queriam fertilidade, eles ofereciam sacrifícios de propiciação para tornar os deuses da fertilidade propícios a eles e terem seus desejos atendidos. Se fossem viajar pelo mar, faziam sacrifício de propiciação para tornar os deuses dos mares favoráveis a eles durante a viajem, afastando assim sua ira e ganhando seu favor. Era basicamente isso que havia na mente deles quando escreveram sobre o ato de propiciar. Seus leitores da época entendiam muito bem isso, pois se havia um deus qualquer furioso, deveriam sacrificar algo em propiciação para afastar sua ira e ganhar seu favor. Detalhe importante: há um deus enfurecido ou inerte, e eu quero que ele seja favorável a mim? Então, sou eu que devo oferecer sacrifício de propiciação para que ele se torna favorável a mim.

Sabendo disso, Paulo e João declaram quase a mesma coisa: “Deus enviou/propôs seu Filho para propiciação por nossos pecados” (1 Jo 2:22; 4:10; Rm 3:25). Aqui está a razão de Paulo mais uma vez declarar que o Evangelho é “loucura e escândalo” (1 Co 1:23). Pensa na confusão na mente dos ouvintes do Evangelho pregado por estes homens: "Há um Deus, e Ele exige que nos arrependamos, porque quebramos todas as suas leis, pois Ele está irado e irá punir os que não crerem em seu Filho, mas eu não preciso fazer sacrifício algum para que essa ira se afaste de mim, Ele está irado, mas Ele mesmo é quem oferece sacrifício para fazer Ele mesmo propício a nós? Isso é loucura. Como alguém que está furioso faria sacrifício de propiciação para afastar de si mesmo da ira que é justa? Loucura”.  Acho que eles pensavam mais ou menos assim. Eu pensaria.

Você vê a grandeza da misericórdia de Deus? Eu e você quebramos toda lei de Deus, mas Ele fez tudo pra ver-nos livre disso! Ele providenciou a remoção definitiva da culpa, a veste de justiça que precisávamos pra ir até Ele, e, ao mesmo tempo satisfez a justiça punindo justamente o pecado quando levou Jesus a cruz. Depois disso Ele diz que foi Ele mesmo que, estando irado, levantou e fez um sacrifício de propiciação em nosso lugar (porque você e eu que deveríamos ter feito), oferecendo para si mesmo oferta para tornar-se a si mesmo favorável a nós! Meu Deus, quem merecia isso? Você consegue enxergar a disposição de Deus em ajeitar as coisas para que de modo natural pudéssemos estar com Ele hoje? Se Deus não tivesse feito tudo isso, quem estaria em sua presença? Não bastaria remover culpa, era preciso ser justo, mas ainda assim, seria preciso tornar Deus favorável a nós. Ninguém foi capaz de fazer isso. Ele foi e fez, e se alegrou com isso, e agora espera ansiosamente que nos acheguemos a Ele com confiança. Não fazer isso é tolice. Deus quer manter um relacionamento íntimo e profundo com seu povo!

Agora você entende a razão da advertência feita pelo autor de Hebreus: “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação” (Hb 2:3)? Ele está favorável, propício, aos que creem em seu Filho Jesus. Aos que O rejeitam não crendo, ainda estão debaixo de grande Ira (Jo 3:36). É bom lembrar da bondade de Deus, mas também devemos lembrar os homens da sua Severidade (Rm 11:22)

Portanto, de agora em diante, quando você ouvir essas três palavrinhas, comece a sorrir por dentro, sinta-se amado, sinta-se acolhido. Jamais se esqueça disso!

Com Amor,
Walter H. C. Silva


6 comentários:

"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face." Agostinho

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