quarta-feira, 29 de julho de 2015

AO LAR DA GRAÇA, UMA ORAÇÃO




Quando de repente a verdade bate a sua porta,
quando menos você espera e a luz clareia sobre a sua face,
quando o seu coração é exposto como num livro aberto,
quando suas motivações são postas à mesa,
quando toda a confiança em si mesmo desmorona,
quando sua força acaba, quando a fraqueza resolve atacar-lhe a memória,
quando a luz do dia raia sobre a escuridão da alma,
quando os olhos de Deus são postos sobre cada partícula que move seu ser,
quando a razão lhe diz que Ele sonda cada motivação,
que Ele sabe o que tem em cada cômodo escondido do íntimo,
que Ele sabe se as lágrimas são verdadeiras,
que Ele sabe se as orações foram sinceras,
se a pregação tem sido coerente com a vida,
que Ele sabe quando o pedido de perdão é sincero ou apenas religião,
que Ele sabe tudo, que é capaz de discernir tudo, entender tudo, sem esforço algum,
que Ele sabe quando por mim será traído, mesmo que este dia não tenha nascido,
nesse momento, eu percebo quão frágil e impotente é a força humana,
que nada em mim é capaz de sustentar-me por si só como santo diante do Santo Deus Homem.

Quando tudo que conheço sobre regras e fórmulas para a santidade falham,
quando a devoção pessoal não é suficiente para satisfazer a alma,
quando a disciplina não é capaz de guiar o coração perdido e engasgado com o pecado,
quando a religião falha em tornar-me digno de apreço,
quando eu me torno um palco de culpa e solidão,
quando me vejo pródigo, perdido, longe de casa, vendido para as mentiras que a minha própria alma criou, ou quando estou perto do lar da graça, mas apenas perto, sem vestes adequadas para entrar,
quando tudo parece falhar para qualquer propósito que em meu coração estiver,
quando tudo perder o sentido, quando chegar o desespero, quando a impossibilidade vier me visitar, quando chegar o momento em que eu cair em mim, e perceber que tudo, por melhor que seja ou mais santo que possa parecer, ainda mesmo que a memória me lembre de quantos acertos tive, ainda assim, a ponte que me liga ao céu terá fendido, o caminho às altas nuvens terá desaparecido, nesse momento, quando a consciência da verdade sobre mim estiver tão clara, óh Deus, eu poderei compreender o que é graça, o que é ser salvo pela fé, por meio da graça, como um dom que não mereço. O que é ser amado ser incondicionalmente.

Depois de todas essas coisas, me ensine quão preciosa é a graça, quão precioso é o sacrifício, quão bendita é a sua misericórdia, quão providencial é a sua eleição, quão forte é o seu amor.
Ensina-me, por minhas fraquezas, como é viver por causa de outro, na força de outro, no poder de outro, na influência de outro, sob o domínio de outro, pertencendo a outro, recebendo tudo por causa de outro, e que tudo que tenho é por causa de outro, que você é a causa de eu existir, que o ar que agora respiro, respiro para ti, por ti, e através de ti. Me ensine, de uma vez por todas, a viver fora de mim, longe de mim, pra ficar mais perto de ti.

Faça-me ver que a graça que agora recebo, de graça, custou a ti tudo, que receber tal dom sem esforço algum, custou a ti todo esforço humanamente conhecido, que esta graça que agora vejo e sinto, custou sua dor, sua aflição, seu escárnio, seu desprezo. Faça-me ver que a liberdade que agora tenho custou sua prisão, que o cálice de amor e misericórdia que hoje cedo encontrei posto em minha mesa foi devido ao cálice de ira e dor que um dia você bebeu, até o fim. Faz-me ver, peço-te, que o perdão que agora recebo é devido ao castigo que outrora suportou em meu lugar. Deixa-me sentir em mim, ainda que por um breve instante, seu sofrer, para que na carne eu aprenda a te honrar.

Por favor, Cristo, meu salvador amado, não me deixe esquecer o quanto te custou amar-me, para que eu possa amar-te voluntariamente, e nunca me deixe, nem se quer por um instante, correr pra outro lugar que não seja a sua casa. Quando todas estas coisas estiverem expostas sobre mim e abarrotarem meu caminho, peço-te, guia-me tranquilamente até tua morada, até o Lar da Graça.

Amém...

Walter H. C. Silva