Há no meio cristão um movimento
recente (e crescente) de pessoas que estão deixando as igrejas em nome de uma
liberdade, uma libertação do “sistema”. Eles são mais conhecidos como “desigrejados”.
Eles são os que de alguma forma
entenderam que para servir a Cristo não é preciso estar necessariamente em uma
igreja, o que de fato é verdade, pois é a Igreja de Cristo que se reúne diariamente
em locais apropriados para prestarem seus cultos de forma pública. Muitas dessas
pessoas querem permanecer fora das igrejas porque foram machucadas, traídas,
abandonadas, usadas, enganadas e tantas outras coisas por líderes ambiciosos de
descompromissados. Outros estão fora porque não querem ser confundidos com
aqueles que estão na televisão fingindo que pregam o Evangelho, não querem
comungar ou ter parte com falsos profetas desse tipo. Alguns estão sinceramente
buscando a pureza da igreja quando pregam para outros saírem das igrejas, mas
eles estão sinceramente errados, e, neste caso, ter um desejo sincero não os
livrará do erro que estão cometendo. Entretanto, já vi muitos desses que estão
fora “do sistema” se reunindo com outros que também estão fora, tornando-se incoerente,
já que estão formando (sem querer) novas comunidades, a dos “desigrejados”.
Há muitos tipos de “desigrejados”,
mas os mais arrogantes e perigosos são aqueles que não saíram das igrejas. Eles
se auto denominam os que “pensam fora da caixa”. Estão pregando um evangelho
disfarçado e destituído de justiça, só tem graça no evangelho deles. Eles estão
nas igrejas, mas formam dentro deles um grupo exaltado que chegou a um nível
além do que a pobre maioria. São dois extremos, e os dois estão errados.
Essas pessoas têm vários argumentos,
desde lógicos até teológicos, mas o fato é que se esquecem de que Cristo nos
criou para vivermos em comunidades. O propósito de vivermos em comunidades vai
além da necessidade de socialização do povo de Deus, é mandamento.
Todos creem que Deus distribui
dons aos homens (1 Co 12), e não há um cristão sequer que possa dizer “eu não tenho dom algum”. Sabemos que os
dons que temos não são dados para nos exibirmos (apesar de que alguns fazem
isso descaradamente), mas para edificarmos os
outros. Essa é razão de todos termos dons: Edificação dos outros, logo, da igreja. Ninguém usa o dom de servir
(Se o seu dom é servir, sirva - Rm 12:7)
para servir a si mesmo, ou o dom de contribuir (se é contribuir, que contribua generosamente - Rm 12:8) para
contribuir para si mesmo. Todo dom é dado para ser usado em favor dos outros (Cada um exerça o dom que recebeu para servir
aos outros - 1 Pe 4:10). Pensar que podemos viver isolado da comunidade de
Cristo é em última instância ser infiel
a Deus. Ele nos colocou em comunidades sociais para que pudéssemos exercer o
dom que recebemos para bem de todos. Isolar-se é o passo mais curto para o suicídio
espiritual. Levar outros a fazerem isso é genocídio de almas.
Noutro ponto, afastar-se de
grupos de cristãos demonstra arrogância, e não humildade sábia. O problema com
a humildade é que sempre que alguém a reconhece em si mesmo, ela toma as malas
e vai embora. Entretanto, dá pra saber que essas pessoas nunca serão humildes
porque elas julgam-se isentas de erros quando dizem que nas igrejas há muitas
pessoas falsas e hipócritas. Tenho feito coro ao convite de John MacArthur quando
diz: “junte-se a nós, temos lugar pra
mais um”. Veja bem, se você se afasta da igreja porque há nela muitos
irmãos hipócritas, será que você deixou de ser um? Alguém diz: “não peque”, mas
esse mesmo alguém peca. Alguém diz “respeite”, mas fura sinal, estaciona na
contra mão, para na vaga de idoso, joga papel na rua, trata mal atendentes de Call Centers e etc. Onde estão os
hipócritas? Eu digo: dentro e fora das igrejas. Será que depois que eles saem das
igrejas eles melhoram? Eu duvido, com todas as letras!
Portanto, argumentar que dentro
de igrejas há muitos hipócritas é soa tão hipócrita quanto à hipocrisia desse
argumento. Não faz o menor sentido.
Os que vivem longe das
comunidades acham que são sábios porque não estão se submetendo aos líderes
religiosos atuais, já que há somente um medidor entre Deus e os homens (1 Tm
2:5). Esse é o problema de observar textos isoladamente fora de contexto, vira
pretexto! De fato, não há nenhum mediador entre Deus e homem, só Cristo. Só que
pensar que pastores podem ser intermediadores nesse sentido é tão infantil!
Esse argumento não é sólido, na verdade, é banal. Eles se esquecem de examinar
TODA a Escritura. Esse negócio de não ser submetido a ninguém é tolice. Veja os
argumentos bíblicos (sem achismo, porque o que o texto quer dizer é exatamente
o que está dizendo):
Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar
contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria
e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês. (Hb 13:17)
Lembrem-se dos seus líderes, que lhes falaram a palavra de Deus. Observem bem o resultado da vida que tiveram e imitem a sua fé (Hb 13:7)
Saúdem a todos os seus líderes (Hb 13:24)
A Versão Almeida traduz “líderes”
por “pastores”. Olha que Legal!!! Nesse ponto, quero destacar que não estou
defendendo a fé cega em “pastores” (falsos), mas homens que sabemos e conhecemos
por serem devotos a Deus. “Pastores”, nesse contexto, temos por aqueles que
zelam pela vida das suas ovelhas com o próprio sangue. Existem muitos desses
por ai. Aqueles outros, na verdade são falsos pastores. São estes falsos
pastores que dão motivos para pessoas desejarem sair das igrejas. Como bem
disse Judas, “Estes são manchas em
vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos
sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte;
são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas”
(Jd 1:12).
Entretanto, não podemos generalizar.
Nem todo policial é corrupto, nem todo funcionário público é preguiçoso, nem
todo pastor é safado. Sem alguns agem assim, não quer dizer que todos são
iguais. O problema é que “um pouco de
fermento leveda toda a massa” (Gl 5:9). Quando eles veem aqueles que estão
na TV fazendo de tudo, menos pregando o evangelho, eles (e o mundo) acham que
todo pastor é assim. Infelizmente temos que lidar com isso. Há muitos que dizem
“nos representar”, mas são uma vergonha para o evangelho. Desde pastores a cantores
gospel, há muitos que estão levedando a massa, mas devemos diferenciá-los dos verdadeiros
pastores e cantores cristãos.
Olhando apenas por essa
perspectiva, eles estão certos de acharem tais homens falsos e hipócritas, mas se
esquecem que joio e trigo se misturam até o dia da colheita (Mt 13:30). O outro
lado da moeda é que devemos viver em comunidade para edificarmos uns aos
outros, e, caso se levante no caminho homens maus e impiedosos dizendo-se serem
“um dos nossos”, os sinceros devem se manifestar (1 Co 11:19).
Por fim, as Escrituras nos exortam
a vivermos em comunidades para encorajarmos uns aos outros (Não deixemos de reunir-nos como igreja [ou
congregação], segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros,
ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia - Hb 10:25). Veja, o
movimento “desigrejados” é antigo.
Há de se lembrar que quando
falamos igreja, não estamos nos referindo a placa alguma. Batistas,
Assembleianos, Presbiterianos e etc, são parte de uma mesmo corpo chamado
Igreja do Deus Vivo.
Talvez o argumento mais precioso
seja o da reciprocidade, que se baseia no amor e gratidão. Reconheçamos isto
para permanecer em comunidade: achamos um povo que decidiu nos amar apesar de nossos
erros e defeitos. Não é válido que decidamos amar esse povo com todos os seus
erros e defeitos? Reciprocidade e Gratidão.
Se alguém não é capaz de superar
os erros dos outros e amá-los apesar disso, não é digno do amor de ninguém, já
que também tem erros, e de fato, o amor de Deus não estará aperfeiçoado nele.
Portanto, permaneçamos em
comunidade e não saiamos dela, é um instrumento de Deus para nos aperfeiçoar.
Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está
aperfeiçoado em nós
1 João 4:12
Walter H. C. Silva


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"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face." Agostinho
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