quarta-feira, 16 de julho de 2014

Paternidade Espiritual



A expressão é controversa. Particularmente, não sou adepto de termos novos para descrever doutrinas ou práticas, e confesso que tenho certa dificuldade em absorver novidades. Mas esse é meu processo de absorção, um certo mecanismo de defesa, entretanto, não inquebrável. Assim, quando ouço alguns termos “novos”, tal como “paternidade espiritual”, tendo a ficar com os dois pés atrás.

Não bastasse, parece ser controverso em razão de ser praticado por igrejas mais modernas. Não se vê (ou se via, até bem pouco tempo)  em meios batistas e presbiterianos, por exemplo, usar-se tais terminologias. Geralmente, expressões como “meus discípulos”, “meus filhos”, “minha geração”, “meus isso e aquilo” são advindas de redutos neopentecostais, que reproduzem quase que mecanicamente esses chavões. Não há muita profundidade teológica quanto ao dever ou necessidade de se usar alguns termos. Parece mais uma “modinha” evangélica que parece agradar a todos. Como resultado, quando igrejas mais, digamos, tradicionais e históricas, passam a adotar esses termos, parece que estão copiando os modelos rasos inventados no meio gospel, e, mesmo sem querer, deixam a impressão de que estão “se adaptando aos tempos”. Esse é o único “porém” que enxergo quanto a adotar termos como “pai espiritual”, etc.


Contudo, para ser positivo, necessário se faz desconstruir uma idéia muito comum: pessoas geram “filhos espirituais”. Nada mais absurdo! Não é possível que uma pessoa seja gerada espiritualmente por outra, ou nasça espiritualmente de outro indivíduo. Jesus explicou isso claramente a Nicodemos quando disse que “o que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito” (João 3.6). Todo nascimento espiritual é realizado por Deus, pela sua soberana vontade, através do Espírito Santo. Textos como os de João 1:12-13; 3:5; 6:63 e 1a João 5:1, impedem que tal doutrina seja prática da igreja cristã. 

Paternidade Espiritual, em síntese, trata-se de Relacionamento Pessoal de Confiança. Ainda que o novo nascimento espiritual seja obra exclusiva do Espírito Santo, o novo crente precisa da ajuda de alguém mais maduro, que, baseado na Palavra de Deus, o ajude a dar os primeiros passos na fé. 

Paulo era um Pai Espiritual. Foi assim que ele se denominou em relação a Timóteo (1a Tm 1.2; 2a Tm 1.2), Tito (Tt 1.4) e Onésimo (Filemom 1:10). Também usa a mesma idéia ao se referir aos irmãos de Corinto (1 Co 4.14-15) Segundo o Dicionário Strong, o termo grego usado por Paulo para “filho”, denota ser um “nome transferido para aquele relacionamento íntimo e recíproco formado entre os homens pelos laços do amor, amizade, confiança, da mesma forma que pais e filhos; no NT, alunos ou discípulos são chamados filhos de seus mestres, porque estes pela sua instrução educam as mentes de seus alunos e moldam seu caráter”

Bastasse isso, ao lembrar que o Apóstolo Paulo foi um verdadeiro Pai Espiritual dos crentes que formou, tenho que o mesmo pode ser aplicado a nossa geração de crentes. Daquele tempo Neotestamentário em diante, conseguimos ver pessoas formando pessoas, especialmente para que todos sejam apresentados a Deus como obreiro aprovado, que manejam bem a palavra da verdade e que não tem do que se envergonhar. Não seria proveitoso nos empenharmos a “formar filhos na fé” apenas para ajudarmos em suas causas temporais; todo trabalho seria como palha, vem o fogo e consome tudo. Por isso, ainda necessitamos de verdadeiros pais na fé, homens em quem podemos confiar, olhar, nos espelhar ao ponto podermos ouvi-los dizer “me imitem, pois eu imito a Cristo”.

Em mais uma colaboração, quero transcrever um trecho do livro “A Cruz de Cristo”, de John Stott:

Deveras, visto que o próprio conceito de pater­nidade humana provém da eterna paternidade divina (Efésios 3:14-15), os pais cristãos hão de naturalmente modelar o seu amor no de Deus. Conseqüentemente, o verdadeiro amor paterno não elimina a disciplina, visto que "o Senhor corrige a quem ama". De fato, é quando Deus nos corrige que ele nos trata como filhos. O princípio que se aplica à família, aplica-se também à família da igreja. Ambos os tipos de família precisam de disciplina, e pela mesma razão. Entretanto, hoje é rara a disciplina na igreja, e onde ela é exercida, muitas vezes é inabilmente administrada. (p. 132).

A grande verdade é que temos necessidade de que se levantem entre nós não apenas “pais espirituais”, como as igrejas modernas levantam a todo tempo, mas que se levantem Homens de Deus, com vida de oração, firmes, convictos, ousados e conscientes, capazes de aplicar disciplina, exortar com amor, graça e misericórdia, que digam-nos “assim diz o Senhor”, e que se proponham a pagar um preço para aceitarem a difícil tarefa de serem verdadeiros pais na fé de homens fracos e rasos, a ponto de torná-los homens de Deus, para então, só então, assumirem o novo compromisso da paternidade espiritual, pois, como alguém já disse: “o evangelho no Brasil possui muitos quilômetros de extensão, mas apenas alguns centímetros de profundidade”.

Assim, concordo plenamente com a necessidade de que hajam entre nós pais espirituais, entretanto, não vejo com bons olhos o fato de haver pais espirituais apenas para dizer que temos. Uma vez que o termo é bíblico, não faz mal a nós, fazermos uso da expressão, desde que façamos também o uso do mesmo modelo apostólico.

Walter H. C. Silva
Com colaboração de Yuri Breder

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