A expressão é controversa. Particularmente, não sou adepto de
termos novos para descrever doutrinas ou práticas, e confesso que tenho certa
dificuldade em absorver novidades. Mas esse é meu processo de absorção, um
certo mecanismo de defesa, entretanto, não inquebrável. Assim, quando ouço
alguns termos “novos”, tal como “paternidade espiritual”, tendo a ficar com os
dois pés atrás.
Não bastasse, parece ser controverso em razão de ser praticado por
igrejas mais modernas. Não se vê (ou se via, até bem pouco tempo) em
meios batistas e presbiterianos, por exemplo, usar-se tais terminologias.
Geralmente, expressões como “meus discípulos”, “meus filhos”, “minha geração”,
“meus isso e aquilo” são advindas de redutos neopentecostais, que reproduzem
quase que mecanicamente esses chavões. Não há muita profundidade teológica
quanto ao dever ou necessidade de se usar alguns termos. Parece mais uma
“modinha” evangélica que parece agradar a todos. Como resultado, quando igrejas
mais, digamos, tradicionais e históricas, passam a adotar esses termos, parece
que estão copiando os modelos rasos inventados no meio gospel, e, mesmo sem
querer, deixam a impressão de que estão “se adaptando aos tempos”. Esse é o
único “porém”
que enxergo quanto a adotar termos como “pai espiritual”, etc.
Contudo, para ser positivo, necessário se faz desconstruir uma
idéia muito comum: pessoas geram “filhos espirituais”. Nada mais absurdo! Não é possível que
uma pessoa seja gerada espiritualmente por outra, ou nasça espiritualmente de
outro indivíduo. Jesus explicou isso claramente a Nicodemos quando disse
que “o que nasce
da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito” (João 3.6). Todo nascimento
espiritual é realizado por Deus, pela sua soberana vontade, através do
Espírito Santo. Textos como os de João 1:12-13; 3:5; 6:63 e 1a João
5:1, impedem que tal doutrina seja prática da igreja cristã.
Paternidade Espiritual, em síntese, trata-se de Relacionamento
Pessoal de Confiança. Ainda que o novo nascimento espiritual seja obra
exclusiva do Espírito Santo, o novo crente precisa da ajuda de alguém mais
maduro, que, baseado na Palavra de Deus, o ajude a dar os primeiros passos na
fé.
Paulo era um Pai Espiritual. Foi assim que ele se denominou em
relação a Timóteo (1a Tm 1.2; 2a Tm 1.2), Tito (Tt 1.4) e
Onésimo (Filemom 1:10). Também usa a mesma idéia ao se referir aos irmãos de
Corinto (1 Co 4.14-15) Segundo o Dicionário Strong, o termo grego
usado por Paulo para “filho”, denota ser um “nome transferido para
aquele relacionamento íntimo e recíproco formado entre os homens pelos laços do
amor, amizade, confiança, da mesma forma que pais e filhos; no NT, alunos ou
discípulos são chamados filhos de seus mestres, porque estes pela sua instrução
educam as mentes de seus alunos e moldam seu caráter”
Bastasse isso, ao lembrar que o Apóstolo Paulo foi um verdadeiro
Pai Espiritual dos crentes que formou, tenho que o mesmo pode ser aplicado a nossa
geração de crentes. Daquele tempo Neotestamentário em diante, conseguimos ver
pessoas formando pessoas, especialmente para que todos sejam apresentados a
Deus como obreiro aprovado, que manejam bem a palavra da verdade e que não tem
do que se envergonhar. Não seria proveitoso nos empenharmos a “formar filhos na
fé” apenas para ajudarmos em suas causas temporais; todo trabalho seria como
palha, vem o fogo e consome tudo. Por isso, ainda necessitamos de verdadeiros
pais na fé, homens em quem podemos confiar, olhar, nos espelhar ao ponto
podermos ouvi-los dizer “me imitem, pois eu imito a Cristo”.
Em mais uma colaboração, quero transcrever um trecho do livro “A
Cruz de Cristo”, de John Stott:
Deveras,
visto que o próprio conceito de paternidade humana provém da eterna
paternidade divina (Efésios 3:14-15), os pais cristãos hão de naturalmente
modelar o seu amor no de Deus. Conseqüentemente, o verdadeiro amor paterno não
elimina a disciplina, visto que "o Senhor corrige a quem ama". De
fato, é quando Deus nos corrige que ele nos trata como filhos. O princípio que
se aplica à família, aplica-se também à família da igreja. Ambos os tipos de
família precisam de disciplina, e pela mesma razão. Entretanto, hoje é rara a
disciplina na igreja, e onde ela é exercida, muitas vezes é inabilmente
administrada. (p. 132).
A grande verdade é que temos necessidade de que se levantem entre
nós não apenas “pais espirituais”, como as igrejas modernas levantam a todo
tempo, mas que se levantem Homens de Deus, com vida de oração, firmes,
convictos, ousados e conscientes, capazes de aplicar disciplina, exortar com
amor, graça e misericórdia, que digam-nos “assim diz o Senhor”, e que se
proponham a pagar um preço para aceitarem a difícil tarefa de serem verdadeiros
pais na fé de homens fracos e rasos, a ponto de torná-los homens de Deus, para
então, só então, assumirem o novo compromisso da paternidade espiritual, pois, como
alguém já disse: “o evangelho no Brasil possui muitos quilômetros de extensão,
mas apenas alguns centímetros de profundidade”.
Assim, concordo plenamente com a necessidade de que hajam entre
nós pais espirituais, entretanto, não vejo com bons olhos o fato de haver pais
espirituais apenas para dizer que temos. Uma vez que o termo é bíblico, não faz
mal a nós, fazermos uso da expressão, desde que façamos também o uso do mesmo
modelo apostólico.
Walter
H. C. Silva
Com colaboração de Yuri Breder
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"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face." Agostinho
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