Por R. C. Sproul

Há quase quarenta anos, eu fiz parte de um grupo conhecido como o
Concílio Internacional de Inerrância Bíblica. Preocupado com o impacto da alta
crítica liberal, nós nos reunimos para definir o que significa dizer que a
Bíblia não ensina nenhum erro e para articular uma posição defensável a
respeito da confiabilidade da Palavra de Deus que os cristãos pudessem usar
para combater os equívocos e declarações falsas da posição histórica da igreja
quanto à Bíblia. O concílio desenvolveu a Declaração de Chicago sobre a
Inerrância Bíblica, que lida com muitas questões relacionadas à inspiração e à
veracidade da Escritura. O artigo XVII dessa declaração afirma, em parte, que
“o Espírito Santo testifica das Escrituras, dando aos crentes a certeza da
veracidade da Palavra escrita de Deus”.
Com esse artigo, queríamos deixar claro que a Bíblia é o livro do
Espírito Santo. Ele está envolvido não apenas na inspiração da Escritura, mas
também é testemunha da veracidade da escritura. Isso é o que chamamos de
“testemunho interno” do Espírito Santo. Em outras palavras, o Espírito Santo
fornece um testemunho que acontece dentro de nós — ele testifica ao nosso
espírito que a Bíblia é a palavra de Deus. Assim como o Espírito testifica ao
nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16), ele nos dá certeza da
sagrada verdade de sua Palavra.
Apesar de sua importância, o testemunho interno do Espírito está
sujeito a equívocos. Um desses equívocos diz respeito a como nós defendemos a
veracidade da Bíblia. Precisamos fornecer uma apologética— uma defesa — para a
sagrada Escritura que se baseie em evidências da arqueologia e da história, na
demonstração da coerência interna da Bíblia e em argumentação lógica? Alguns
interpretam de forma errada a doutrina do testemunho interno dizendo que a
apresentação de evidências para a veracidade da Bíblia é desnecessária e até
mesmo contraprodutiva. Tudo o que precisamos é descansar no fato de que o
Espírito Santo nos diz que a Bíblia é a Palavra de Deus tanto em declarações
bíblicas diretas quanto em sua obra interna de confirmar a veracidade da
Escritura.
Aqueles que defendem essa posição geralmente querem salientar que
a autoridade da Palavra de Deus depende do próprio Deus e creem que sujeitar a
sua Palavra à prova empírica é fazer a veracidade da Bíblia depender da nossa
própria capacidade de avaliar suas reivindicações a respeito da verdade. Em
certo nível, essa preocupação é louvável. A autoridade da Escritura depende do
fato dela própria ser a revelação de Deus, acima de quem não há autoridade
maior. Mas quando estamos falando de prova para a veracidade da Escritura, não
estamos falando sobre a autoridade da Palavra de Deus, mas de como nós sabemos
quais livros, que reivindicam ser a Palavra de Deus, vieram, de fato, dele.
Aqui, a experiência subjetiva não pode ser o nosso único tribunal de apelação.
Nós precisamos de algum tipo de testemunho objetivo para determinar se a
Bíblia, o Alcorão ou o Bhagavad-Gita é a Palavra de Deus, porque todos eles
reivindicam ser a Palavra de Deus.
É aí que entra em jogo o que João Calvino chamou de indicia.
Os indicia — indicadores — são os aspectos testáveis, analisáveis,
falsificáveis ou verificáveis da prova. Eles incluem coisas como evidência
arqueológica, a conformidade da Escritura com o que conhecemos da história a
partir de outras fontes, sua coerência interna, sua majestade e beleza, e assim
por diante. Tais coisas nos dão confiança objetiva de que a Bíblia é, de fato,
a Palavra de Deus. Tanto Calvino quanto a Confissão de Fé de Westminster nos
dizem que tais indicadores são suficientes em si mesmos para convencer as pessoas
de que somente a Escritura é a Palavra de Deus.
Todavia, ambas essas autoridades reconhecem a diferença entre
prova e persuasão, e é realmente a obra da persuasão que estamos discutindo
quando olhamos para o testemunho interno do Espírito. Seres humanos são peritos
em rejeitar evidências objetivas quando elas não confirmam seus preconceitos,
não importa quão clara ou convincente seja a evidência. Algumas pessoas não
serão persuadidas por nenhuma prova no mundo, porque elas não estão
verdadeiramente abertas para a evidência.
Minha experiência como apologeta e ministro me mostrou que a real
razão pela qual a maioria das pessoas rejeitam o cristianismo não é por falta
de evidência. A prova de fontes externas a respeito da verdade do relato
bíblico é muito grande. Não, a verdadeira questão é moral. A pessoa não
reconciliada com Deus em Cristo e vivendo em desobediência não quer que seja
verdade a declaração da Escritura de que Deus possui pleno e final direito
sobre sua vida. Ela quer se livrar desse livro o mais rápido que puder.
É aí que o testemunho interno do Espírito entra. Apenas aqueles
que Deus Espírito Santo regenerou se submeterão à Escritura como sua Palavra
inerrante e infalível. O Espírito Santo não nos dá um novo argumento para a
verdade da Bíblia, mas ele confirma em nossos corações a verdade da Escritura
como ela é demonstrada tanto nas marcas internas da Escritura (a harmonia e a
majestade de seu conteúdo) quanto nas marcas externas da Escritura (a precisão
histórica). Provas objetivas para a Bíblia são muitas e convincentes, mas elas
não podem forçar pessoas a crerem contra a sua vontade. Pecadores só são
persuadidos a receberem a Bíblia como a Palavra de Deus quando o Espírito Santo
muda seus corações e lhes dá a certeza de que eles podem confiar no que a
Escritura diz.
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R.
C. Sproul nasceu em 1939, no estado da Pensilvânia. É ministro presbiteriano,
pastor da igreja St. Andrews Chapel, na Flórida. É fundador e presidente do
ministério Ligonier, professor e palestrante em seminários e conferências,
autor de mais de sessenta livros, vários deles publicados em português, e
editor geral da Reformation Study Bible.
Fonte:
http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/721/O_Testemunho_Interno_do_Espirito
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"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face." Agostinho
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