terça-feira, 2 de setembro de 2014

MARCHA PRA JESUS: MINHAS IMPRESSÕES



Há muito tempo deixei de participar de eventos como show gospel e marchas para Jesus. Já cheguei a abrir um show da Fernanda Brum em 2006, numa marchar para Jesus com um “ministério” de louvor que tínhamos na época. Entretanto, minhas convicções me impedem de continuar participando “euforicamente” de tais eventos.

Distante de quase todos que andam ao meu redor, coloco-me em posição oposta a tais eventos, sabendo que, por fazer parte de uma minoria, via de regra, recebemos adjetivos pejorativos por não abraçar esses “atos de fé”. Conheço muitos irmãos amados, alguns que exercem liderança de igrejas e grupos, que defendem enfaticamente a presença do povo de Deus em tais eventos, chegando a dizer que, caso não estejam presente, estarão cometendo pecado da omissão (Tg 4:17).  Contudo, não uso minhas convicções para me afastar dos mesmos, e, neste ponto, com muita cautela, uso-me da célebre frase de Agostinho que dizia: “Naquilo que é essencial, unidade; naquilo que é duvidoso, liberdade; e em todas as coisas, caridade”.


Creio que há muito a se dizer, mas não quero me delongar muito. Sobre o histórico das marchas para Jesus, shows, etc, você poderá fazer uma busca de suas origens, pesquisar a influência de tais eventos na vida da igreja brasileira, etc. Não quero usar esse espaço para isso, muitos outros já o fizeram. 

Entretanto, depois de anos sem participar de um só evento gospel, decidi levar meu filho de sete anos pra ir ver o show do Thalles Roberto, que aconteceu na Marcha pra Jesus aqui em Campo Grande, no dia 26 de agosto de 2014. O que vi me fez ter mais convicção de permanecer longe de eventos assim. Nunca fez tanta diferença pra mim a frase da música do Regaste: “Fora do Sistema, longe, eu caminho mais perto” (escute aqui).

Quando o tal homem que faz chover (profeta da chuva) veio a esta cidade, dava até pra ver o verde da grama, e tinha lugar de sobra pra escolher o melhor local para sentar. Porém, quando cheguei ao show gospel, quase já não dava pra andar naquele lugar. Segundo as informações dos organizadores, haviam aproximadamente 70 mil pessoas naquele lugar. Sem entrar em detalhes do profeta da chuva (já o fiz aqui), o fato de reunir-se para “ouvir uma palavra” parece não ter chamado muito a atenção dos 70 mil que abarrotaram o show do Thalles Roberto para entoar cânticos.

Nesse ponto, preciso parar e levantar uma questão para aqueles que afirmam que cometemos pecado da omissão por não irmos à Marcha Gospel. Refiro-me ao fato de que não se reúnem 70 mil pessoas nas Câmaras de Vereadores e Deputados para clamarem por justiça todo dia. Onde estão estes 70 mil cristãos quando são convocados a tais atos sérios? Eles costumam aparecer como formigas em “atos proféticos”, mas somem de vista quando se trata de vida real. Se deixar de participar de uma Marcha é cometer pecado de omissão, estou bem consciente deste pecado. Entretanto, não me parece sadio “marchar profeticamente” para Jesus Cristo ser o dono de uma cidade quando a maioria desses 70 mil “soldados em guerra” não saem às ruas em dias normais para proclamar o senhorio de Cristo nas praças e esquinas dessa cidade. O ponto de encontro desses “profetas da última geração” são os templos, as baladas gospel, as noites de alegria. Dificilmente conseguiremos reunir 70 mil pessoas em um parque público apenas com o intuito de dobrar os joelhos e orar, sem violão, bateria, show, luzes, nomes, políticos, profetas, etc., apenas dobrar os joelhos e levantar um grande clamor de confissão de pecados, como a Assembléia Israelita costumava fazer (Ne 9). Reunir todo este povo para provar que “temos força”, é um motivo justo; o local, a forma e o dia é que são inapropriados.

Assim, se pecamos por não comparecer às Marchas para Jesus, quem dirá aqueles que Marcham para Jesus todos os anos e nada fazem depois disso. Que Deus me perdoe por não Marchar para Jesus no dia 26 de agosto, aqui em Campo Grande (Ironia modo on), mas oro para que Ele me encontre Marchando nas praças, nas varandas dos lares, nas reuniões de orações, no meu tempo a sós com Ele, no meu serviço, nos fóruns, em lugares onde realmente fazem a diferença (Ironia modo off).

Um pouco mais de perto, minhas considerações sobre a Marcha para Jesus residem não apenas no despropósito do evento, mas no efeito prático individual desse “mover espiritual”.

Quando estacionei meu carro, ao abrir a porta, reconheci a “música ambiente” que “agitava” a galera. Era o hit mundial Oppan Gangnan Style, em uma “versão gospel”. Lutei comigo mesmo insistindo que ouvia aquela música de qualquer lugar, menos da Marcha. Quanto mais caminhava, menos podia negar que o som era oriundo das Caixas de Som da Marcha para Jesus. Como se não bastasse, quando enfim achei um lugar, parei e comecei a observar o “movimento”, que passou a ouvir a versão gospel de “show das poderosas” (aqui), Pasmei...

Comecei a refletir sobre a razão de fazer versões gospel de canções como estas  (Sobre ser gospel, mundano e secular, já me posicionei aqui). Será que o mundo ainda interessa a nós? Será que ainda nos impressiona? Parece que impressiona muitos irmãos. Ora, se alguém ouve Show das Poderosas, que é feita pra sensualizar e instigar a lascívia, e faz uma “versão gospel”, está querendo o que? Sensualizar a Igreja de Cristo? Ninguém faz uma versão gospel de uma música que não acha legal. Show das Poderosas é sucesso no mundo sem Cristo. Entretanto, se colocar uma letra “gospel” tá liberado! A letra pobre, indecente e burra da música original vai embora, mas o princípio permanece: Vamos nos divertir!!! Assim, tá valendo Oppan Gangnan Style, Show das Poderosas, Beijinho no Ombro, desde que haja uma versão gospel, o lema é diversão!

Não bastasse a pobreza de tais coisas, antes de entoar qualquer canção, passei a ouvir o que estava prestes a cantar, como sempre faço. No meio de tudo aquilo, observando a letra no telão, conclui: Não vou cantar isso! A letra de uma canção de aproximadamente sete minutos dizia: “A glória de Cristo vive em mim, por isso eu não posso ficar calado”. Esse refrão era seguido de pulos frenéticos da multidão. Mais adiante, o mesmo cantor cantava e se balançava com o seguinte refrão: “Vamo balança.. shei shei sheik” (veja aqui). Definitivamente eu não poderia abrir a minha boca pra cantar “louvores ao Senhor” tão empobrecidos e cheios de “eu”. Eu realmente estava certo, era melhor pecar por omissão e ficar em paz do que ter ido e visto essa baderna que chamam de festa cristã.

A euforia era tanta que lá no meio, perto do palco, a multidão não soube se conter, acabaram quebrando um cano que ficou jorrando água como um vulcão em erupção.

Esses 70 mil presentes oraram com muito fervor assumindo um compromisso de zelar e lutar pela pureza dessa nação, comprometendo-se a participar mais ativamente e inteligentemente da vida social do país, mas se este compromisso for igual aquele assumido pelos cristãos presentes no profeta da chuva, não vai passar de euforia e emoção, será como palha e restolho consumidos pelo fogo. Já se passaram alguns meses desde que o profeta veio, mas a chuva ainda não caiu. Esperaremos mais uma marcha, e então veremos se o compromisso foi verdadeiro.

Por fim, não quero me ater ao “artista” principal (que insistiam que era Jesus, mas não era), nem ao seu jeito de cantar (que não dava pra entender nada do que ele falava, deixando pobres mortais como eu desorientados na canção), mas quero imprimir uma última cena, que expressa o que estou dizendo.

Ao me afastar um pouco da multidão (e olha que eu estava no fundo), logo atrás de nós, encontrei um grupo de adolescentes com faixas do Thalles Roberto na cabeça, em roda, fumando Arguile. Confesso que tirei meu celular para tentar registrar o momento, mas o máximo que consegui foram vultos, por isso, não postarei aqui. Eu não pude acreditar nisso.

Estou convicto de que eles só queriam se divertir. Conclui que estou certo quando digo que eles vêm pra igreja, e o mundo vem junto; retiram o rótulo “mundano” e colocam “gospel”, daí é só relaxar e curtir. Show das poderosas, Beijinho no Ombro, etc., em versões gospel, indicam o que os “novos crentes” querem: curtir! Arguile ou Show das Poderosas Gospel, não importa, a essência vem junto: Diversão.

Tenho certeza que Marchar para Jesus várias milhas não traz qualquer impacto na vida de ninguém, nem remove “potestades locais”, como pensam alguns, mas demonstram a capacidade de invencionice pra agradar massas, políticos, líderes, etc. Teria valido a pena se aquela multidão tivesse caído de joelhos em confissão aos pecados pessoais e da nação, como faziam o crentes de Jerusalém (2 Cr 20).

Concluo minha opinião mais convicto disso: Fora do sistema, longe, eu caminho mais perto. Nunca me senti tão à vontade em estar deslocado de algo. Depois de anos sem Marchar para Jesus, estou bem certo que assim devo ficar.

Com pesar, 
Walter H. C. Silva
 
Marcha pra Jesus em Campo Grande

Prefeito, Governador e Vereados estavam presentes

Multidão aglomerada antes do show

O "artista" da noite

9 comentários:

  1. Excelente artigo! Voltemos ao evangelho de Jesus Cristo e não ao "mundo pop de Jesus", cujo lema é apenas a diversão, e não a fé e a obediência aos mandamentos de Deus independentemente da situação.

    ResponderExcluir
  2. Muito bom ! Que possamos chegar a este nivel de entendimento todos os dias ... Que venhamos a conhecer cada vez mais a palavra de Deus, e não nos conformar com as coisas neste mundo ! Jesus Cristo veio a terra com o objetivo de pregar o evangelho e salvar os que estavam perdidos, um evangelho puro , simples, humilde e sem glória ... E o que precisamos ! Pessoa dispostas a pregar e viver esse evangelho longe dos palcos, holofotes e grandes eventos. Esse e o verdadeiro sentido de servir a Deus.

    ResponderExcluir
  3. verdade!
    somos do tempo em que ser crente, significava SER crente messssmo!!!!
    A Luiza

    ResponderExcluir
  4. Boa tarde Sr. Walter,
    Concordo em partes e discordo em outras.
    eh muito facil ficar na nossa zona de conforto e orando sozinho.
    “Mateus 18.20”
    Acredito que dos 70.000, pelo menos 2 ou 3 estavam realmente orando, pedindo perdão, etc… e mostrando a kara do cristão.

    Se ficarmos nos acovardando, e deixando o mundo (gays, etc) dominar o mundo, qual sera nosso papel como discípulo?
    Devemos ser sal.

    Concordo que existem outras mil maneiras de ajudar nessa caminhada( ajudar necessitados, etc), ou ate o simples fato de amar o próximo (que ja eh muito dificil), mas eh importante mostrar nossa forca também. eh importante estarmos juntos, como um corpo.

    mas concordo com tudo o que voce disse, tirando o que não concordo.
    fica com Deus.
    abraco

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado por suas considerações.
      Concordo com vc, possivelmente haviam muitas pessoas naquele lugar orando sinceramente. Tenho certeza de que você era uma delas. Mas havemos de concordar, nem sempre onde há um ajuntamento de pessoas em nome de Jesus, de fato, é a Jesus que estão adorando. Espiritas se reúnem em nome de Jesus.

      Você e eu concordamos que é preciso mostrar a cara e a força do Cristão, eu disse isso no texto, mas, o ponto é a forma e o local, como eu abordei. Temos muita força sim.
      O mundo e sua força (movimentos LGBT, abortistas, etc) precisam ser combatidos, mas se analisar bem, movimentos assim causam mais mal do que bem. Acho que nosso papel de discípulo está em fazer discípulos, combater as forças do mal é nossa tarefa, mas principalmente através da oração. Por isso eu disse que é só comparar as reuniões de oração, sem festa, violão, musica, etc.. é só ver as reuniões de oração da nossa igreja, na sala 113, as vezes que vou, se contar no dedo, não dá 20, para uma igreja de quase 6 mil.

      Eu participava de um projeto na praça dos índios todas as terças feiras. Lá só tem mendigo, drogados, índios e alguns viajantes de passagem. Eu preguei ali muitas vezes, vi algumas pessoas convertidas, e levamos algumas para as casas de apoio. Um casal de colombianos que conhecemos ali está na minha célula. Na minha célula, por exemplo, sempre pedi a ajuda “voluntária” dos irmãos, nunca ninguém foi. Mas quando fazemos um churrasquinho no meio da semana, a célula vem em peso. Entende onde está a ênfase da maioria esmagadora? Ser sal é mais do que ir à marchas...

      Por isso eu prefiro andar deslocado, nesse sentido, mas me junto a um pequeno grupo que marcha onde não há mídia, artistas, etc... só servos desconhecidos...

      Como disse no inicio do texto, podemos não concordar 100%, mas naquilo que é essencial, pelo menos, unidade.

      Excluir
  5. Recebido e lido, mastigando ainda....
    Mas suas impressões vêm ao encontro da minha decisão de não ter ido, meditei sobre ir/não ir, obediência/desobediência... Minha conclusão pessoal, que me levou a ficar em casa com os meus, foi a de que não seria um momento pessoal de adoração, culto ao Senhor.... O ritmo, som, culto a personalidade... quase um processo de idolatria (acho que não exagero...), tudo isso viraria "diversão do mundo", e se no mundo não busco essa diversão, só porque é gospel também não é bom o suficiente para mim e minha filha, afinal precisamos buscar nos alegrar no Senhor, sem confete e maquiagem, porque Ele não precisa disso...obrigada pelas suas palavras, verdadeira exortação...

    Deus te abençoe, abraço, Cátia

    ResponderExcluir
  6. Muito Obrigado pelo texto... assim eu me sinto mais livre para dizer QUE NUNCA FUI E SEMPRE DEI DO CONTRA ESTA MARCHA RIDICULA... e agora voce me provou que estava certo! Obrigado mesmo...

    Dr Abrão

    ResponderExcluir
  7. Bom dia,

    N'A Palavra, Jesus bem nos avisa:

    "Ide; eis que vos mando como cordeiros ao meio de lobos." Lucas 10:3
    "Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas." Mateus 10:16

    Que o Espirito Santo nos ilucide e nos dê descernimento para não caírmos - e é tão fácil escorregar...
    Vozes cristãs que, justificadamente, saem do "mainstream" ajudam-nos a perspetivar fatos de modo diferente. E isso é de salutar.

    Deus abençoe esse tremendo país.

    Um abraço saudoso dos portugueses,

    Susy e José

    ResponderExcluir
  8. É meu amigo, alguns já me disseram que sou conservador, mas prefiro ficar na palavra genuína a fantasiar com outros tipos de animação,
    gostei do que disse,
    gde abr,
    Laerte

    ResponderExcluir

"Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; quando reconhecer que foi seu o erro, venha ter comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de quem está dito: Buscai sempre a Sua face." Agostinho

Reservo-me ao direito de não publicar comentários ofensivos e desrespeitosos. No mais, fique a vontade para deixar sua opinião!